
Da experiência de Deus, o envio à missão
Marcos nos relata logo no início de seu Evangelho: "Nesses dias, chegou Jesus de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no Rio Jordão. Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como uma pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: "Tu és o meu Filho amado; em Ti encontro meu agrado". (Marcos 1,9-11)
A experiência de Deus, vivida tão intensamente por Jesus no Batismo, pela atenção a sua presença naquele contexto particular do encontro com João Batista, foi a que o confirmou e o equipou com o Espírito, em sua missão messiânica, como Servo de Javé. Jesus encontra sua missão de ser servidor do Reino de Deus, que é socorro dos miseráveis e para todos que colocam sua esperança em Deus. Assume um modo de ser e viver, com amigos e amigas, discípulos e discípulas. Assume a condição de Messias errante, que não tem lugar fixo para morar, com o convite explícito a homens e mulheres para o seguirem na missão de proclamar o Reino de Deus.
Lucas nos fala dos sinais que acompanham os novos tempos, que a soberania de Deus inaugura na história humana: "Conforme seu costume, no sábado entrou na Sinagoga da Galileia e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do Profeta Isaías. Abrindo o livro encontrou a passagem: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou com a unção, para anunciar a boa notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação dos presos e aos cegos, a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor". Em seguida, Jesus fechou o livro, o entregou ao ajudante e sentou-se. Então, Jesus começou a dizer-lhes: "Hoje se cumpriu essa passagem que vocês acabaram de ouvir". (Luc 4,14-21)
Jesus assume daí para frente uma vida de itinerante para proclamar a misericórdia de Deus de maneira concreta, ao curar os doentes, aliviar a dor dos abandonados, tocar os leprosos e sará-los, abraçar as crianças e os mais simples. Todas as pessoas deveriam provar a proximidade salvadora de Deus, desde os mais desprezados como as prostitutas, os cobradores de impostos, os endemoninhados, os samaritanos.
Jesus demonstrava uma confiança total no Pai e convidava a todos a participarem do Reino de Deus, Reino de justiça, de misericórdia e de perdão, onde se propunha uma vida digna para todos, com a mudança profunda dos corações e do modo de agir frente aos mais necessitados.
Desta maneira, a experiência do Rio Jordão foi decisiva na vida de Jesus. Como profeta itinerante do Reino de Deus, mantinha-se em sintonia profunda com aquela experiência nuclear em que Deus se manifestou como Pai que o amava com ternura especial. Por isso sua missão se centrava em manifestar a todos a misericórdia do Pai, sua infinita compaixão. O Reino de Deus está próximo! O importante é acolhê-lo.
Uma experiência provinda da mesma fonte:
Também Cândida Maria de Jesus sentiu o chamado para fundar a Congregação das Filhas de Jesus, a partir de uma profunda experiência de Deus.
Era o dia 02 de abril de 1869, naquele ano, Sexta-Feira Santa.
Cândida Maria de Jesus, então Joana Josefa Cipitria y Barriola, rezava na Igreja do Rosarillo, diante do altar da Sagrada Família. Como se uma luz radiante se acendesse em seu coração, entendeu claramente que devia fundar uma Congregação com o nome de "Filhas de Jesus", dedicada à salvação das almas por meio de educação e instrução da infância e juventude. A princípio ficou surpresa, não entendendo como seria possível, mas a Virgem Santíssima repetia uma e outra vez a mesma coisa.
No dia seguinte, procurou pelo Padre Herranz, que estava celebrando a Eucaristia. Após a celebração, pode confidenciar com o sacerdote a experiência que tivera no Rosarillo. Escutou-lhe e levou a sério o que ela lhe confiara. E ela lhe declarou uma grande dificuldade: não sabia ler nem escrever. Padre Herranz não viu nisso um impedimento: ofereceu-se para ensinar-lhe o castelhano e o latim; a ler e escrever. Em dois anos a aprendizagem já se fazia no suficiente.
Está aí a mão de Deus: uma pobre empregada doméstica, quase analfabeta, que em sua adolescência resolveu ser só para Deus, reza e espera a confirmação de Deus.
Um sacerdote jesuíta, Padre Miguel de los Santos San José Herranz, concebe a idéia de fundar uma congregação feminina dedicada à educação e espera a pessoa adequada para tal.
Uma resposta de Deus, recebida por um e por outro, de maneira desconcertante, para que a fé fosse o único apoio. Por fim, um encontro providencial dos dois instrumentos de Deus fez com que a Vontade do Pai se realizasse. Nasceu em 8 de dezembro de 1871, em Salamanca, Espanha, a Congregação das Filhas de Jesus. "A obra não é de vocês, é de Deus", afirmou o Padre Herranz.
Madre Cândida teve a graça de colocar Jesus no centro de sua vida. Tudo o que realizava o fazia buscando atender a sua vontade, mesmo que dela exigisse grandes sacrifícios e mesmo humilhações nas empreitadas fundacionais. Ela mesma dirá a suas filhas em diversas ocasiões: "muitos golpes levo no coração", "estou passando por maus momentos, o que estamos sofrendo, só Deus sabe", "a cruz está aqui agora, permaneçamos nela; havemos de deixá-la, estando pregado nela o nosso Deus?"
Não se pode ser de Deus sem seguir de perto a Jesus. O Deus absoluto, foco do amor centrado e incondicional de Madre Cândida é, por sua vez, um Deus "humanado", "encarnado" na história, a quem ela chama de Pai, Esposo, Amigo e Senhor. O que importa é ser como Jesus. É ele o fundamento de toda sua vida, essa terra firme de seu peregrinar como fundadora. E dizia com toda convicção: "Vivamos sempre muito unidas a esse nosso amado Esposo e Pai, Jesus".
Ser como Jesus a levou a descobrir nos pobres os próximos mais próximos. Ainda quando empregada doméstica, em Burgos, despendia de parte de seu salário para oferecer comida aos pobres. Repartia o almoço todos os dias. E eles começaram a incomodar os moradores do prédio, o que motivou a patroa a pedir-lhe que encontrasse outro lugar para essa distribuição, o que a levou a exclamar: "Onde não há lugar para meus pobres, não há lugar para mim".
Ao longo de seus quarenta e um anos de dedicação total à missão, Cândida Maria pôde comprovar o que dizia com convicção: "Eu por mim nada posso; mas com a graça de Deus posso tudo". Os que puderam admirar os progressos do Instituto, com várias escolas fundadas na Espanha e uma no sertão de Goiás, Brasil, não podiam ocultar seu espanto pela desproporção entre a formação que dispunha aquela mulher e a formação integral da infância e juventude que sua obra promovia. O mais importante: muitas testemunhas de sua vida concordaram que a fortaleza constante com que a Madre Cândida realizou tantas e difíceis tarefas estava bem radicada no abandono em Deus, na confiança ilimitada em sua divina providência.
"Eu quero o que Deus queira, tudo o que Ele queira. Conhecer sua vontade e cumpri-la com toda perfeição".
Da experiência de Deus, o envio à Missão: é o que percebemos nitidamente ao contemplar a vida de Jesus e dos que, ao gozar da experiência do amor dele, se dispõem a segui-lo de perto. Esse amor de Deus se revela tão forte que logo a pessoa se vê chamada a uma missão de amor e dedicação para o bem da humanidade. É o que acontece na vida dos grandes santos!
Zélia do Christo Rei Moura, FI
Bibliografia: Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Evangelhos sinóticos.
José Antonio Pagola. PPC, Editorial y Distribuidora , AS
Jesus, uma abordagem histórica
Maria del Carmen de Frias Tomero, FI
Aonde Deus Te chame. Uma vida consagrada à educação cristã.